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Porto Velho/RO,  15/12/2009.
Notas

Futebol

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Por Sérgio Ramos

No texto intitulado “Desalienação II”, de 11/05/2009, me declarei como único ex-flamenguista vivo. Motivo? Não sabia porque era um flamenguista quase fanático, se é que existe isso. E por que, de repente, me encontrei flamenguista roxo? Discutindo e quase brigando nos momentos que era para se divertir, brincar, extravasar as tensões.  

Fiz uma pequena regressão para descobrir porque era torcedor ferrenho, mesmo que, até 2005, nunca tinha assistido o Flamengo jogar no Maracanã. Meu sonho de criança.  Me senti influenciado, manipulado, afinal, desde de muito pequeno, em Tutóia, no Maranhão, pelas ondas de rádio globais, sabia tudo sobre os times do Rio de Janeiro. Lembro-me que nessa época, anos 60 e 70, lá em Tutóia, era apenas uma brincadeira de crianças do interior que não tinha muita opção. Lembro-me que cada torcida ficava em volta dos seus próprios rádios, torcendo pelos seus times. Sempre do Rio. Brincadeira sadia.  

Descoberto que tinha sido influenciado, decidi me desalienar. Afinal, moro em Porto Velho e não no Rio de Janeiro. Descobri também que o futebol é uma gigantesca teia de aranha onde a corrupção impera, assim como na política, e eu não podia compartilhar com isso. Mas quem disse que eu fazia parte disso tudo? Ninguém, imaginação própria. Vale ressaltar que os jogadores não tem nada a ver com isso, são vítimas dessa desorganização.

Resultado: parei de me divertir com os jogos. Adotei um comportamento de que tudo deveria contribuir para o meu crescimento, e futebol estava fora dos planos. Pura perda de tempo.

O tempo passou.

Descobri que quando fui influenciado pelas ondas globais (lá em Tutóia), fui pego desprevenido. Adotei uma postura sem saber exatamente para que servia. E passei muito tempo assim. Isso me levou a me tornar o guardião da moral flamenguista, não aceitando quaisquer brincadeiras que pudessem manchar a honra do meu time do coração. Isso me fazia sofrer. Esse sofrimento passou a atrapalhar a minha vida, no aspecto pessoal e profissional.  Como? Nos dias de jogo do Flamengo não tinha nada que me impedisse de assistir, pela TV, é claro. Junto com os amigos e muitas cervejas. Tantas que às vezes, seus efeitos me impediam de ir trabalhar no dia seguinte, principalmente, se o Mengão perdesse. Motivo? Medo de ser humilhado, gozado, “chacotado”..., e claro, de ressaca. Além disso, perdia muito tempo respondendo e-mails indesejáveis e me estressando com ligações. Esse incômodo durava pelos menos uns dois dias. Pior para mim e para a empresa.

“Criei vergonha na cara”: desistir de torcer pelo Flamengo e até mesmo pela Seleção. Tomei uma posição: torcer pelo mais fraco. Assim, quando apareciam as zebras, tirava sarro dos outros, imune de qualquer desgaste emocional, mesmo quando o Flamengo perdia. Não “pegando corda”, parei de ser importunado. Porém, essa imunidade não foi legal para as relações de amizade, pois ninguém gosta de ser importunado sem ter o direito de gozar quando o time perdia. Me tornei um chato. E assim acabou: não brinco mais com ninguém e vice-versa.

Tudo isso aconteceu em nome do controle emocional. Realmente, não sabia (tenho ainda minhas dificuldades) me comportar diante de gozações, apesar de gostar de gozar dos outros, e muito menos diante de críticas. Até mesmo quando as críticas eram para o Flamengo. Ainda bem que as minhas reações nunca chegaram as vias de fato, mas gerava um grande desgaste emocional em mim. E em função disso, me afastei dos amigos, das turmas, enfim, criei um novo mundo, sem brincadeiras, convites para churrascos, etc.

Em compensação, aproveitei muito bem esse tempo, e me dediquei as outras atividades tais como: ler, estudar, escrever, desenvolver senso crítico, ficar mais em casa, enfim, dedicação total no auto-desenvolvimento, chegando a criar o site www.mudarparavivermelhor.com.br. Entre as leituras li Inteligência Emocional, do Daniel Goleman. Então prometi a mim mesmo que iria aprender a controlar minhas emoções e parar de fugir de qualquer situação que pudesse causar algum estresse, principalmente ao estresse inútil que é reagir a uma brincadeira referente a futebol.

Depois de muito tempo, internalizando alguns princípios de vida, principalmente, os voltados para os relacionamentos, me sinto consciente o bastante para me expor novamente às brincadeiras que antes eram entendidas como ofensas.

Agora entendo o que é torcer por um clube. Não importa qual. É uma cultura mundial, e em especial, brasileira. Não posso mudar isso. Mas acredito que posso contribuir, pelo menos com um “pingo d’água”, para eliminar o aspecto violento resultante do fanatismo inconsciente, da grande maioria dos torcedores, através deste depoimento.

Temperança. Você, claro, já deve ter conhecimento dessa palavra. Mas só para lembrar: “Temperança significa equilibrar, colocar sob limites, ''moderar a atração dos prazeres, assegura o domínio da vontade sobre os instintos e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados''. Wikipedia. Mais uma definição para melhor entendimento:  “A temperança é essa moderação pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria liberdade,” extraído do livro “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes” de André Comte-Sponville.

Bom, isso é uma excelente definição de controle emocional. Creio me sentir mais controlado a ponto de me expor novamente às brincadeiras, não só de futebol, mas quaisquer outras que estejam dentro dos limites sociais racionais.

Quando vi e ouvi o Ronaldo - brilha muito no Corinthians, que admiro muito pelo seu poder de recuperação - se declarando não ser mais flamenguista e assumir o seu atual time, os motivos não importam, resolvi também assumir novamente a posição de flamenguista, e deixar de ser o único ex-flamenguista vivo. Depois do Ronaldo assumir o seu novo time, não seria o único ex.

Brincadeiras a parte, essa declaração é lastreada por uma série de motivos. Um deles, é que mesmo não incentivando nenhum dos meus três descendentes (Lucyanna, Rodrigo e Liz), me deparei com a Lucyanna e o Rodrigo possuidores das mais lindas camisas do futebol mundial. Pois, mesmo com a minha indiferença, se declararam flamenguistas. Confesso que cheguei a desestimulá-los. Mas não tive coragem de incentivá-los a serem indiferentes a uma cultura dominante como é a do futebol, depois de se declararem flamenguistas.

Demorei a entender o poder do futebol. Demorei, também, a minha participação nessa cultura. Era um crítico ferrenho dos programas voltados para o futebol. Enquanto que os políticos fazem a festa, os meios de comunicação nos divertem com os programas futebolísticos. Se tem dúvidas, apenas conte quantos programas de TV e rádio, revistas, notícias em jornais, participantes de redes sociais... tratam de futebol. É uma brincadeira saudável. Afinal, não preciso participar de uma gang (torcida organizada) para me tornar um torcedor. Torcer é testar meus nervos quando sou obrigado a aceitar uma derrota e ainda absorver as gozações. Incrível, mas estou querendo isso novamente.

É claro que entendo que o futebol é uma ferramenta de controle social assim como as religiões. Sei disso. Ou melhor, agora sei disso. Também não posso mudar, mas posso ver também os outros aspectos da vida e não só futebol. Vale ressaltar que nada mudou: a corrupção tanto na política como no futebol continua. O que mudou foi a minha percepção diante de mal aparentemente incurável.

O jornalista e escritor Chico Sá (é meio doido, confesso) traduziu muito bem o que eu até dias atrás, não conseguia ver: pouca gente entende que futebol é prá tirar onda. Amigos torcedores de times diferentes iam ao estádio ou assistiam pela TV, aos jogos juntos. Era um momento de confraternização, entretenimento. Podia-se fazer e receber a gozação ali mesmo, em tempo real. E todo mundo voltava aos seus afazeres tranqüilos. Porque não é o time que importa. O time é apenas um pretexto para se relacionar melhor. Futebol é humor, é brincadeira. Ufa!  

É claro que o torcer virou caso de polícia, porque o futebol perdeu a graça quando perdeu o bom humor. Isso resultou em depredações, esvaziamento dos estádios, mutilações, assaltos, mortes, etc. Quem ainda se arrisca a ir aos estádios submete-se ao corredor da separação, criado pela polícia para evitar os confrontos. Tirar onda com o torcedor do outro time pode ser sua sentença de uma surra ou até mesmo da sua morte. O agravante é que as torcidas, assim como os partidos políticos estão brigando entre si. Não sei onde isso vai parar, com toda a permissividade das autoridades que estão apenas cuidando da sua própria segurança. 

Mas isso não é generalizado. Você ainda tem seus amigos. Fico maravilhado de ver os jogos junto com a torcida do Flamengo, ali no bar Maraca, que é perto da minha casa e eu nem sabia. No jogo Flamengo e São Paulo, tinha tanto são paulino quanto flamenguista e não houve uma única confusão, apesar dos xingamentos e palavrões. Uma festa. E eu perdendo tudo isso. Depois terminou tudo em samba, abraços e provocações saudáveis. Risos, muitos risos. E rir é bom prá saúde. E nem precisei beber a ponto de não ir trabalhar no dia seguinte. Não precisarei perder a concentração no trabalho só porque não paro de receber gozações quando o meu time perde. Não precisarei responder a todos os e-mails provocativos. Preciso apenas aproveitar a sensação se superioridade quando o Flamengo ganhar e aceitar quando somos “humilhados” dentro das quatro linhas. Manter-se sereno diante dessas coisas é bom para o coração. É um treinamento para outras situações que temos que enfrentar no dia-a-dia. 

E assim, descobri que torcer por um time, ou melhor, para o Flamengo, é positivo em todos os aspectos: o mais importante é manter-se relacionando com seus amigos, principalmente os “invejosos”, ou melhor, os flamenguistas enrustidos.

Descobri alegria que é o futebol. Isso quer dizer que estou aprendendo ver o lado bom das coisas.

Descobrir que já tenho algum controle emocional, um pouco de temperança, e a sensação de ser livre, pois agora escolho com conhecimento, e não por influência (é claro que há alguma, não posso negar).

Descobri que futebol é a maior rede social do mundo, e não posso me permitir ficar fora disso, já que tenho vários sites www.sergioramos.com.br (cultura), www.mudarparavivermelhor.com.br (autodesenvolvimento), www.sergioramos.com.br/tutoia (uma declaração de amor a minha cidade), além de Orkut, Twitter (sergioramos_ se quiser me seguir...), Facebook, etc.

Por fim, futebol é uma ferramenta para conhecer novas pessoas, aprofundar o relacionamento com meus amigos, aproximar mais dos meus filhos, combater estresse e testar o controle de minhas emoções. Além disso, não gostar de futebol e samba “bom sujeito não é...”, já dizia o poeta. Afinal, precisaremos de referência. Até no lazer.

Gostar de futebol com bom humor é mudar para viver melhor.

 



(imprimir texto)



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